Como o celular sabe que tem trânsito na sua rua
As linhas vermelhas do Google Maps e os alertas do Waze vêm de outros celulares. Como a velocidade de quem está na rua vira mapa de trânsito, como o app prevê o horário de chegada e por que às vezes ele manda você por um caminho estranho.
Você abre o mapa e a avenida aparece vermelha. Dez minutos depois, a mesma avenida está verde. Não há um funcionário olhando a rua nem uma câmera em cada esquina. Mesmo assim, o app sabe que o trânsito parou, onde e por quanto tempo.
A explicação está no bolso dos outros motoristas. Este artigo mostra como os apps de navegação transformam celulares em sensores de trânsito, como calculam o horário de chegada e por que às vezes erram.
Cada celular é um sensor
Quando alguém dirige com o Google Maps ou o Waze aberto, o celular sabe onde está e em que velocidade se move, graças ao GPS. Com a permissão do usuário, esses dados de localização são enviados de forma agregada aos servidores do serviço.
Um carro sozinho não diz muito: ele pode estar parado porque o motorista estacionou para comprar pão. Mas quando dezenas de celulares na mesma via estão andando devagar, o padrão fica claro. O sistema compara essa velocidade com a velocidade normal daquela rua e pinta o trecho de verde, laranja ou vermelho.
Os serviços afirmam tratar esses dados de forma anônima e agregada, para que o mapa mostre o fluxo da rua, e não quem está nela. As configurações de privacidade de cada app explicam como a localização é usada e como desativar o envio.
Waze: a comunidade avisa
O Waze funciona com o mesmo princípio de velocidade, mas acrescenta os relatos dos próprios usuários. Com poucos toques, o motorista informa um acidente, um carro parado, um buraco, um alagamento ou uma blitz. Outros usuários confirmam ou dizem que o problema não está mais lá.
Isso dá ao Waze uma característica própria: ele sabe o motivo do trânsito, e não só que ele existe. Também explica por que o app funciona melhor onde há muitos usuários ativos, como em grandes cidades, e fica menos preciso em estradas pouco movimentadas.
O Waze foi comprado pelo Google em 2013, mas os dois apps continuam separados, com equipes e comunidades próprias.
Google Maps: o passado ajuda a prever
O Google Maps combina o trânsito atual com o histórico. Ele sabe, por exemplo, como aquela avenida costuma se comportar numa sexta-feira às 18h. Com isso, consegue estimar como o trânsito vai estar daqui a meia hora, quando você chegar ao trecho, e não só como está agora.
Essa previsão é importante para calcular o horário de chegada. Uma rota que está livre agora pode encher até você chegar lá, e o contrário também acontece. Em publicações técnicas, o Google já descreveu o uso de aprendizado de máquina para melhorar essa estimativa, combinando dados históricos e em tempo real.
Como o horário de chegada é calculado
Simplificando, o app divide a rota em pequenos trechos e estima quanto tempo cada um vai levar no momento em que você passar por ele. Entram na conta:
A velocidade atual de quem está no trecho.
O comportamento histórico daquele trecho no mesmo dia da semana e horário.
Eventos conhecidos, como acidentes relatados, obras e interdições.
Os semáforos e conversões, que atrasam o percurso.
Somando os trechos, sai o horário de chegada. Durante o trajeto, o cálculo é refeito continuamente, e por isso o horário muda.
Um exemplo, passo a passo
Imagine um trecho de avenida de 500 metros em que o limite é 60 km/h e, num horário normal, os carros passam a uns 40 km/h.
- Às 18h, vinte celulares com o app aberto estão nesse trecho. O GPS de cada um mostra que eles avançam devagar, a menos de 10 km/h.
- O servidor recebe essas posições, descarta as que parecem estranhas, como um celular parado há muito tempo num ponto, que provavelmente é alguém estacionado ou um pedestre, e calcula a velocidade média do trecho.
- Comparando 10 km/h com os 40 km/h habituais, o sistema classifica o trecho como congestionado e pinta de vermelho.
- No Waze, um motorista toca em “acidente” e informa uma batida na faixa da direita. Outros confirmam ao passar. O alerta aparece para quem vem atrás.
- Quem está traçando uma rota que passaria por ali recebe uma estimativa de tempo maior e, se houver uma alternativa mais rápida, o app sugere o desvio.
- Às 18h40, os celulares voltam a passar a 40 km/h. O trecho fica verde de novo, e o alerta de acidente some quando usuários informam que ele não está mais lá.
Todo esse ciclo acontece continuamente, em milhares de trechos ao mesmo tempo.
Outras fontes de dados
Os celulares são a fonte principal, mas não a única. Dependendo do serviço e do país, entram também:
Dados de órgãos de trânsito, como interdições programadas, obras e eventos, quando são publicados ou compartilhados com os apps.
Relatos de parceiros, como prefeituras e concessionárias de rodovias. O Waze mantém um programa de parceria com órgãos públicos para troca de dados, e cidades brasileiras já participaram dele.
Informações históricas coletadas ao longo de anos, que mostram o padrão de cada via em cada horário.
Os detalhes de quais fontes cada app usa em cada cidade não são sempre públicos. O que se sabe com segurança é que, sem os celulares em movimento, o mapa de trânsito em tempo real não existiria.
Por que o app manda por um caminho estranho
Quase todo mundo já foi desviado por uma rua de bairro que parecia não fazer sentido. Alguns motivos:
O app encontrou uma rota alguns minutos mais rápida e escolheu por ela, mesmo que seja mais cheia de curvas.
Um acidente relatado segundos antes fez o app recalcular.
Os dados de uma rua secundária são poucos, e o app assumiu que ela estava livre.
A rota mais rápida nem sempre é a mais agradável ou a mais segura para você. Muitos apps têm opções para evitar pedágios, rodovias ou balsas. Nas configurações, dá para ajustar as preferências de rota.
Quando o trânsito do mapa erra
Poucos usuários na via. Numa estrada vazia ou de madrugada, o app pode ter pouca informação e usar mais o histórico.
Mudanças repentinas. Um acidente que acabou de acontecer leva alguns minutos para aparecer, até que carros suficientes passem devagar ou alguém relate.
Túneis e viadutos. O GPS perde precisão em túneis e em vias sobrepostas, e o app pode atribuir a velocidade à pista errada.
Eventos fora do padrão. Um feriado, um jogo de futebol ou uma manifestação quebram o padrão histórico.
Uma história curiosa sobre o sistema
Em 2020, um artista alemão chamado Simon Weckert chamou atenção ao caminhar por ruas de Berlim puxando um carrinho com 99 celulares, todos com o Google Maps aberto. O mapa passou a mostrar as ruas como congestionadas, porque interpretou os celulares lentos como carros parados. O experimento, amplamente divulgado na época, mostra bem que o sistema lê celulares, e não carros.
Como você contribui (e como deixar de contribuir)
Se você usa um desses apps com a localização ativada, provavelmente está contribuindo com os dados de trânsito, conforme as políticas de cada serviço. No Waze, a contribuição faz parte do funcionamento do app. No Google Maps, o uso depende das configurações de localização e de histórico da conta.
Para revisar, abra as configurações de privacidade do app e da conta. Os nomes dos menus mudam com as versões. Procure por localização, histórico ou privacidade.
Perguntas frequentes
O app vê a velocidade do meu carro?
O app calcula a sua velocidade pelo GPS do celular enquanto você navega. É assim que ele estima o trânsito e o horário de chegada.
Por que o trânsito aparece mesmo quando não estou usando o app?
Porque outras pessoas estão usando. O mapa mostra a soma dos dados de muitos usuários, não só os seus.
Para ler sobre os apps em si, qual artigo?
Há uma comparação em apps de GPS e trânsito.