Detector de metais no celular: o que o magnetômetro encontra e o que ele não encontra
Os apps de detector de metais usam a bússola do celular. Isso permite achar ferro, aço e ímãs a poucos centímetros, mas não ouro, prata, alumínio ou cobre. Como o sensor funciona, o que dá para fazer em casa e por que desconfiar de apps que prometem ouro.
Na loja de apps há dezenas de “detectores de metais” para celular, alguns com nomes que prometem encontrar ouro enterrado. A curiosidade é legítima: será que o celular realmente detecta metal? A resposta curta é que ele detecta alguns metais, a uma distância muito pequena, e por um princípio bem diferente do detector que se vê na praia.
Este artigo explica o sensor por trás desses apps, o que eles conseguem e o que não conseguem encontrar, e para que servem de verdade dentro de casa.
O sensor: a bússola do celular
Quase todo smartphone tem um magnetômetro, o sensor que faz a bússola funcionar e ajuda o mapa a saber para onde você está virado. Ele mede a intensidade e a direção do campo magnético ao redor do aparelho, em três eixos.
Em condições normais, o magnetômetro sente principalmente o campo magnético da Terra. No Brasil, essa intensidade fica, em geral, entre algumas dezenas de microteslas, variando conforme a região. Os apps de detector de metais mostram esse número e ficam atentos a mudanças bruscas.
Quando um objeto de ferro ou aço se aproxima, ele distorce o campo magnético local. O número sobe ou muda de direção, e o app transforma isso num alerta, num gráfico ou num som.
O que ele detecta
Materiais ferromagnéticos, que são atraídos por ímãs: ferro, aço comum, níquel e cobalto. Na prática doméstica, isso inclui pregos, parafusos, vergalhões, canos de ferro galvanizado, estruturas metálicas e ferramentas.
Ímãs, com grande facilidade. Um ímã de geladeira faz o valor disparar mesmo a alguma distância.
Aparelhos com ímãs ou correntes fortes, como alto-falantes, motores, fones e transformadores. Isso também gera leituras altas.
O que ele não detecta
Ouro, prata, cobre e alumínio. Esses metais não são atraídos por ímãs e praticamente não alteram um campo magnético estático. Por isso, um magnetômetro não os percebe. A própria descrição de um dos apps desta lista, na loja, afirma que ele não consegue detectar prata, ouro e moedas de cobre.
Objetos a mais do que alguns centímetros. O efeito de um parafuso no campo cai muito rápido com a distância. O celular percebe um prego a poucos centímetros, não um objeto enterrado a meio metro.
Fios elétricos de cobre, em regra. O cobre não é ferromagnético. Um fio só aparece se houver corrente alternada forte passando nele, e mesmo assim o sinal é fraco e depende do aparelho. Não use o celular para decidir onde furar perto de instalações elétricas.
Por que o detector de verdade é diferente
Os detectores de metais usados em praias, em obras e na segurança funcionam por indução eletromagnética. Uma bobina cria um campo magnético que varia rapidamente. Qualquer metal condutor, seja ferroso ou não, reage gerando correntes próprias, e uma segunda bobina percebe essa reação.
É por isso que um detector de verdade encontra alumínio, ouro e cobre, e o celular não. O celular não tem bobina transmissora. Ele só escuta o campo que já existe. Nenhum app consegue mudar isso, porque a limitação é do hardware.
| Detector por indução | Celular com magnetômetro | |
|---|---|---|
| Princípio | Cria um campo e mede a resposta | Mede o campo que já existe |
| Detecta ouro, prata, cobre, alumínio | Sim | Não |
| Detecta ferro e aço | Sim | Sim, bem perto |
| Profundidade | Depende do aparelho, pode ser dezenas de centímetros | Poucos centímetros |
Os apps
Os dois apps abaixo são dos mais instalados na categoria e descrevem com clareza que usam o sensor magnético.
Detetor de metais, da Smart Tools
Mostra o valor do campo em microteslas e um gráfico. A descrição na loja explica que o app exige o sensor magnético e cita o uso para encontrar vigas e tubulações de metal em paredes. O cartão mostra que é gratuito, com anúncios.
Detector de metais, da ExaMobile
Também mede o campo magnético, com gráfico de tendência. A descrição informa que o app não detecta metais não ferrosos. O cartão indica anúncios e compras no app.
Se o seu celular não tiver magnetômetro, o que acontece em alguns modelos mais simples, esses apps não funcionam. A bússola do Google Maps também não gira nesses aparelhos.
Para que serve em casa
Achar parafusos e pregos na parede de drywall. Placas de gesso são fixadas em perfis de aço com parafusos. Passando o celular devagar pela parede, a leitura sobe perto dos parafusos, o que indica onde estão os perfis.
Localizar um objeto de ferro caído num lugar sem visão, como uma chave de fenda atrás de um móvel, desde que esteja bem perto.
Descobrir se um objeto tem ímã, como um fecho magnético de capa ou uma peça de brinquedo.
Curiosidade e ensino. O app mostra o campo magnético da Terra mudando quando você gira o celular, e como um ímã altera essa leitura. É uma forma simples de visualizar um conceito de física.
Como usar da melhor forma
- Afaste o celular de ímãs, fones e caixas de som antes de começar.
- Tire a capa se ela tiver ímã, como capas carteira com fecho magnético.
- Abra o app num ponto sem metal por perto e observe o valor de base.
- Mova o celular devagar, rente à superfície. O magnetômetro fica num ponto específico do aparelho, geralmente perto do topo. Descubra onde passando um ímã pequeno ao redor do celular e vendo onde a leitura dispara.
- Considere relevante só uma mudança clara em relação ao valor de base.
Um experimento simples para fazer em casa
Se você quer ver com os próprios olhos o que o celular detecta, separe alguns objetos: um prego ou parafuso de ferro, uma colher de aço inox, uma lata de alumínio, uma moeda, um anel ou brinco de metal, e um ímã de geladeira.
- Abra um dos apps de detector de metais numa mesa de madeira ou de plástico, longe de outros metais.
- Anote o valor de base mostrado em microteslas.
- Aproxime cada objeto devagar do topo do celular, até encostar, e anote o maior valor.
- Repita com o objeto a 5 cm e a 10 cm de distância.
O resultado costuma ser parecido com isto:
O ímã faz o valor disparar, mesmo de longe.
O prego de ferro altera o valor quando está muito perto, e o efeito some rapidamente com a distância.
A colher de inox pode reagir pouco ou nada, porque muitos aços inoxidáveis usados em talheres são pouco magnéticos. Varia conforme a liga.
A lata de alumínio e o anel de ouro ou prata praticamente não mudam a leitura.
As moedas reagem conforme a composição. Moedas com aço na liga podem alterar a leitura, e as de ligas não magnéticas, não.
O experimento mostra, na prática, a regra do magnetômetro: ele percebe o que é atraído por ímã, e só de perto. Também é uma boa atividade para explicar magnetismo a crianças.
Cuidado com promessas de ouro e tesouro
Apps com nomes como “detector de ouro” usam o mesmo sensor dos apps acima. Pela física do magnetômetro, eles não detectam ouro. Alguns mostram animações que reagem a qualquer coisa, e outros pedem assinatura para liberar um suposto modo avançado. Antes de pagar por qualquer recurso, leia as avaliações recentes e lembre da limitação do hardware.
O mesmo vale para “scanner de parede” que promete ver canos de PVC, fiação ou a estrutura da parede com a câmera. O celular comum não enxerga através de paredes.
Perguntas frequentes
O app pode estragar o celular?
Não. Ele apenas lê um sensor que o celular já usa para a bússola. O que pode atrapalhar a bússola por um tempo é aproximar um ímã forte, e aí vale recalibrar com o movimento em forma de oito.
Serve para achar cano de água antes de furar a parede?
Só se o cano for de ferro galvanizado e estiver bem perto da superfície. Canos de PVC e de cobre não aparecem. Para furar com segurança, consulte a planta hidráulica e elétrica do imóvel ou use um detector de parede próprio para isso.
Por que a leitura muda quando só giro o celular?
Porque o campo magnético da Terra tem direção. Girar o aparelho muda como esse campo cai em cada eixo do sensor. Por isso, mantenha a orientação do celular enquanto procura.